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[OLHA O QUE EU LI!!]

Vou começar a publicar aqui neste espaço as leituras que estou fazendo e as quais desejo partilhar com meus amigos. Minha intenção é apresentar os textos de maneira bem simples. Espero que gostem ou quem sabe podem ser leituras que ajudem a inspirar a todos/as a compartilharem também suas próprias leituras sejam elas literárias ou não.
Daniel Munduruku
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A SUAVIDADE DO VENTO
CRISTOVÃO TEZZA
EDITORA RECORD/2015
(A primeira edição foi publicada em 1991)

Quando Cristovão Tezza lançou seu aclamado “Filho Eterno”, ganhador de todos os prêmios literários possíveis na ocasião, fiquei tentado a ler. Digo que fiquei tentado porque não sou muito fã de ler os livros que fazem sucesso demais. Eu sempre os acho mediáticos e deixo sempre “a roda rodar” antes de me atirar nas leituras que todo mundo está fazendo. Não sei se é por inveja literária ou por despeito por não ser um escritor para o público adulto. Deve ser as duas coisas. Além do mais nunca tinha ouvido falar de Tezza, embora tenha descoberto posteriormente que ele já era um escritor de renome e um professor dedicado em seu Estado natal, o Paraná.
Quero confessar, porém, que nunca li “O filho eterno”. Ensaie algumas vezes, mas havia um bloqueio que me impedia de começar a leitura. Deixei de mão. Não me obriguei a ler a famosa obra. É um direito do leitor não ler. Eu não li.
Tempos depois me deparei com o próprio Tezza. Ambos participávamos do Festival da Mantiqueira, um lindo evento organizado pelo Governo do Estado de São Paulo, na bucólica São Francisco Xavier, um lugarejo incrustado na serra da Mantiqueira. Entre piadas contadas à espera de um demorado almoço que não chegava nunca, pude conhecê-lo. Para minha surpresa ele disse que conhecia meu trabalho, claro, através de seus filhos que liam meus livros na escola. Isso foi o começo de um bate papo que ainda hoje continua a acontecer em outros encontros.
O fato é que a partir desse encontro quis também eu conhecer a obra do autor que conhecia a minha. Achei que devia isso a ele. Queria poder conversar sobre seu trabalho no próximo encontro. Porém, confesso, não foi “O filho eterno” que me fez gostar de seu trabalho. Não foi também seu livro mais recente “O professor”, que tive oportunidade de ler entre minhas viagens aéreas, que mais me agradou.
Embora não tenha lido toda sua grandiosa produção, devo confessar que o livro mais legal que eu li de Cristovão Tezza, foi “A suavidade do vento”. Por que? Não saberia respondê-lo com objetividade, mas creio que foi a eloquência errante de seu personagem principal, também um professor, que se sente aprisionado e prisioneiro da própria existência. Um verdadeiro dom Quixote que briga com seus moinhos de vento, fantasmas de vida e de morte que instigam e angustiam o leitor. O que pensar de uma existência medíocre que divide-se com outras existências medíocres remoendo lembranças, memórias afetivas, mentiras verdadeiras e verdades mentirosas numa profusão de sentimentos?

Isso para mim é o que a leitura dessa obra provocou. Sei que é isso que a literatura tende a provocar. Direi: a boa literatura. Essa é das boas. Vai por mim.
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HISTÓRIAS DE FADAS
(Texto Integral)
Oscar Wilde
Editora: Saraivadebolso/Nova Fronteira/2015

Para quem gosta de contar ou ouvir histórias o livro de Oscar Wilde é um prato cheio, como se diz. É muito gostoso de ler porque envolve o leitor na rede da linguagem e o conduz aos tempos em que elas, as histórias, ocorrem.
Ao ler este livro fiquei pensando no tempo em que meus filhos eram pequenos e me pediam, insistentemente, para eu contar histórias para eles. As vezes eu havia acabado de chegar de uma viagem e queria namorar, mas até que meu papel de contador de histórias não tivesse sido cumprido, nada de me liberar. Muitas vezes tive que contar e recontar histórias. Algumas inventava na hora e depois as esquecia até por conta do cansaço que sentia. O bom é que meus filhos não esqueciam e no dia seguinte eu pedia para que eles me contassem. Quase sempre eu é que dormia.
Lembrei disso porque na apresentação do livro de Wilde é dito que ele escreveu essas histórias para seus filhos. Fiquei imaginando a cena: o famoso escritor que chega em casa, cansado após um dia de trabalho – e em um tempo em que havia maior escassez de energia elétrica e nenhum computador – sentava-se na poltrona com um livro na mão e lia histórias para as crianças. Tempos depois não conseguia mais ler as mesmas histórias e então teve que inventar outras para poder satisfazer os pequenos. No final, apesar do cansaço do dia, o herói sentia-se satisfeito por ter conseguido dar prazer aos seus pequenos ouvintes.

É por isso que imagino que este livro pode ser um grande aliado para os pais. As histórias são de puro êxtase narrativo: envolve, cria cenários, mostram personagens que se modificam ao longo da história e, mais importante, não trazem nenhuma lição de moral deixando para os ouvintes o papel de alimentar seu espírito com suas próprias conclusões. Acho que isso é de suma importância para educar as crianças, pois não são os adultos que devem impor a moral, mas devem oferecer os instrumentais para que a criança/ouvinte possa perceber os caminhos a seguir. Contar história é um ato de confiança na capacidade de avaliar. É isso. É assim que os mitos indígenas ensinam, foi assim que eu aprendi. Por isso gostei desse livro. Eu o recomendo.

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QUER OUVIR UMA HISTÓRIA?
Sobre as histórias que a Literatura e o Cinema contam
Heloisa Prieto
Editora: Bamboo Editorial/2014

Reli este livro há alguns dias atrás. Digo que reli por esta é uma versão revista e ampliada de uma primeira edição que saiu no inicio do século XXI e que fez um estrondoso sucesso. A voz de Heloisa Prieto ecoa de maneira ímpar nesta obra, agora relançada pela Bamboo Editorial. Quis reler porque Stephen King me animou (ler postagem anterior) a buscar uma voz brasileira que conhece, como poucas pessoas, a linguagem da escrita literária. Em se tratando desta autora, o livro nos apresenta algo ainda mais completo e complexo porque abriga uma possível leitura dessa mesma linguagem literária que o cinema busca traduzir para a telona.
Este é um livro de muitas vozes. Heloísa as reúne para nos contar o que está por trás das diferentes linguagens literárias desde as histórias encantadas de Sherazade passando pelos clássicos de aventuras, até os mitos dos diferentes povos, a autora nos conclama a perceber que estamos cercados por grandes histórias que ainda precisam ser contadas e estas mesmas histórias estão se oferecendo para cada um de nós cabendo-nos a tarefa de encontrar uma linguagem pessoal que nos permita narrar a nossa imaginação.
Além da instigação individual, o livro propõe uma série de sugestões para que os professores incentivem o gosto pela leitura literária em seus alunos. Este livro é um recurso maravilhoso para quem deseja se apossar da arte de contar...e ouvir...uma linda história.

Devo dizer meu deslumbramento pessoal por Heloísa a quem conheço há mais de vinte anos. Sempre fui um grande admirador de sua capacidade de comunicar, criar, contar e escrever. Foi ela quem me deu as primeiras e importantes dicas no começo de minha incursão pelo mundo da literatura. Seus livros são maravilhosos, inspirados e inspiradores, como ela mesma o é. Essa é minha dica. Podem acreditar.




DE ONDE VÊM AS HISTÓRIAS
Maria José Silveira
Editora: Bamboo Editorial/2015

Eis um outro livro que me chamou bastante atenção nos últimos dias. É mais um daqueles que você começa a ler e não para mais porque consegue atrair do começo até o fim. É um livro de leitura fácil, mas muito instrutivo para os que, como eu, labutam para encontrar a linguagem perfeita para seus escritos.
Maria José Silveira é uma escritora bastante conhecida do público em geral por já ter “passeado” pela literatura em seus trabalhos de ficção há vários anos. E é justamente porque escreve ficção que acumulou a experiência que agora divide com seus leitores, famintos que somos em descobrir de onde vêm as histórias. Você sabe? Quem sabe?
Confesso que, como Maria José Silveira também tenho minhas dúvidas. Quando criança fica sempre impressionado ao ouvir as histórias que as avós contavam. Elas as tinham guardadas na memória e as contavam como se elas próprias tivessem vivido os acontecimentos que narravam. Isso me deixava bastante curioso e sequioso em saber detalhes. Elas sempre desconversavam e diziam que na hora certa eu entenderia. Depois que cresci comecei a entender que as histórias moram dentro da gente até que ganhem verdade. As palavras dão verdade a elas. Mas nem tudo pode ser contado de um jeito desnudo. É preciso que ganhe vestimenta para que os ouvintes possam suportar a verdade. Assim, penso que as histórias são reflexos de uma verdade oculta que veste uma roupa que cabe em cada leitor/ouvinte. É uma roupa sob medida.
Foi bom para mim descobrir alguns novos parâmetros teóricos na composição de meus livros, meus personagens. Como já disse na leitura anterior (Stephen King) sou um aprendiz no uso da palavra escrita e por isso é importante caminhar com experientes escritores na descoberta de seu uso perfeito.
Foi isso que o livro de Maria José Silveira me fez pensar. Eu viajei na maionese, como se diz. Mas foi uma viagem bonita, lúdica, criativa. Eu gostei muito de fazer essa viagem. Espero que gostem também. Eu recomendo.

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SOBRE A ESCRITA
A arte em Memórias
AUTOR: Stephen King
Editora: Suma
Ano de publicação: 2015


Quando eu comecei a escrever não tinha a mínima noção sobre a arte da escrita. Escrever era uma necessidade que eu tinha enquanto professor que gostava de produzir seu próprio material para os alunos. Sabia escrever coisas ligadas ao universo escolar e ao mundo do jovem. Eu nunca estudei ou li qualquer material que me ensinasse a escrever profissionalmente. Como já disse em outros textos e entrevistas, comecei a escrever literatura para crianças e jovens como parte de minha função educativa, acreditando que com esse instrumento poderia fomentar uma nova mentalidade e consciência. E mesmo depois que havia publicado duas dezenas de livros ainda não me sentia um escritor convicto de minha capacidade de atrair a admiração de leitores.
Até hoje foi assim. Claro que o fato de ler bastante foi me dando base para incorporar em mim as técnicas da escrita aliadas a um estilo quase oral de escrever que ainda hoje tento manter no material que produzo.
Devo confessar, no entanto, que fiquei muito fascinado com a leitura do livro de Stephen King, o mestre do suspense mundial. É uma leitura deliciosa porque quase uma autobiografia onde o escritor vai dissecando seu modus operandi de criar seus personagens e escrever suas histórias, além de oferecer conselhos (ou talvez, desconselhos) para quem deseja se aventurar na arte da escrita. Este foi o primeiro livro que li e que me apresentou de forma decisiva como uma pessoa atenta à realidade que o cerca e às experiências que vive, pode tornar-se um grande narrador, um grande contador de histórias.
Revendo minha própria trajetória, não posso garantir que é preciso ler todo e qualquer livro que fale sobre a arte da escrita para tornar-se um escritor, mas garanto a vocês que me senti reconfortado com essa leitura em particular porque, de certa forma, me encontrei nela seja no aspecto positivo ou no negativo. Eu também estou ali.
Esta é minha dica para quem quer se inspirar no início do novo ano. Fique claro que não é uma leitura literária no sentido oficial do termo, mas com certeza é uma boa overdose de boas experiências contadas por quem sabe escrever histórias de sucesso.

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OS ABRAÇOS PERDIDOS
Autor: João Chiodini
Editora: editora da Casa/2015

Trago comigo, desde criança, a constante ausência de meu pai em casa. Ele era um excelente carpinteiro e por conta disso viajava bastante para atender as empresas fora da capital, Belém. De certa forma cresci com a presença dessa ausência e sei que isso deixou em mim algumas sequelas que carrego comigo até os dias de hoje.

Foi para as lembranças de infância e das ausências de meu pai que este livro de João Chiodini me levou durante sua leitura. Claro que não tem nada a ver diretamente com minha infância porque a história narrada se passa em situação urbana e fala de ausências muito mais sofridas que geram carências muito mais profundas especialmente porque as zonas urbanas são cada vez mais solitárias, onde as pessoas não cuidam umas das outras.
É um livro fácil de ler e que conta com singeleza a história de um filho que, apesar dos vícios de um pai ausente, violento e viciado, o tem como referência de família. É, portanto, a narrativa que atinge de forma direta a todos aqueles que, como eu ou você, temos relações nem sempre tranquila com nossos pais.
É uma obra de ficção e deve ser lida como tal, mas acredito que a ficção traz consigo boas lições e reflexões que podem nos ajudar a ser melhores.

É isso aí.


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O MURO
Autor: Jean Paul Sartre
Editora: Saraiva de Bolso


O texto integral do pai do existencialismo traz cinco contos que apresentam a veia literária que sempre o caracterizou. São textos densos, plenos de significações e reflexões que nos permitem pensar sobre o nosso estar no mundo com todas as contradições que isso implica para a existência humana. São contos cujos personagens centrais vivem seus dilemas pessoais a partir dos paradoxos existenciais que estão sempre a nos colocar em conflitos com o drama de viver.
No começo fiquei um pouco ressabiado em ler Sartre embora o tenha conhecido na época da faculdade de filosofia. Li algumas de suas obras filosóficas que sempre me deixaram angustiado justamente por conta de suas imbricações com a vida real. Nunca havia lido sua obra literária a qual fui apresentado agora através desta publicação de bolso. Confesso que gostei do que li. Há muito o que se refletir porque não traz o complexo pensamento filosófico sartriano, mas mostra como a literatura pode nos oferecer algumas possibilidades de leituras do mundo em que nos movemos. Não vou enganar: não é uma leitura fácil e será bom que o leitor já possua alguma iniciação no pensamento desse grande filósofo do século XX.  Isso ajudará, mas para quem está acostumado à leitura literária não fará muita diferença.
Avaliação: Muito bom!



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Daniel Munduruku, índio e escritor

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28/07/2009 | 18h00 | Mariana Del Grande

Daniel Munduruku é o maior escritor indígena do Brasil. Graduado em Filosofia e doutorando em Educação na Universidade de São Paulo, ele tem 34 livros publicados e seu nome ocupa as prateleiras das melhores livrarias do país.

Diferente da maioria dos índios, que ainda lutam para derrubar conceitos antiquados em relação as suas culturas e tentam conseguir espaço para mostrar as tradições, Daniel Munduruku vive da literatura indígena e conseguiu um feito inédito: seus livros são adotados em diversas escolas públicas e particulares de todo o país! Um passo gigante em direção ao futuro: nossas crianças já começam a conhecer o índio de verdade, ao invés daquele ser nu, limitado e inferior que, durante cinco séculos, povoou a imaginação da sociedade brasileira.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu ao Blog do A’Uwe por e-mail.



Visite o site do escritor: www.danielmunduruku.com.br

Em breve a Loja…