26 de mai de 2017

Campanha de financiamento coletivo: EU APOIO O UKA - "Literatura Indígena é Resistência"

O Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais é uma instituição sem fins-lucrativos e de caráter educativo e cultural. Presidida pelo escritor indígena Daniel Munduruku, foi concebida por um grupo de profissionais indígenas e não-indígenas com o objetivo central promover a Literatura Indígena brasileira e prestar serviços na área educacional proporcionando maior conhecimento da lei 11.645 que instituiu a obrigatoriedade da temática indígena e afro-brasileira no currículo escolar brasileiro.
Nosso Instituto desenvolve projetos na área de cultura e educação indígenas, a fim de dar visibilidade à produção literária indígena em âmbito nacional e proteger o patrimônio imaterial dos povos indígenas. Há mais de uma década temos produzido saberes e enriquecendo o diálogo entre a sociedade não-indígena e as sociedades indígenas brasileiras. Garantindo assim a proteção dos saberes tradicionais e contribuindo positivamente para o fortalecimento da Educação e da Cultura brasileira.
Precisamos do seu apoio para darmos continuidade a essa história e fazer ainda mais pelos nossos povos!
Xipat Oboré (tudo de bom)!
Link da campanha: https://apoia.se/uka
Canal no youtube: https://www.youtube.com/user/dmunduruku

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13 de mai de 2017

SER MÃE

SER MÃE

No coração da mãe cabe o universo inteiro.
Cabe o céu, os planetas, as praias e outeiros.
Cabe a tristeza do tristonho e a alegria do risonho.
Cabem o choro, cabem os sonhos.

No coração de mamãe cabíamos nove e mais todos o que se aproximavam.
Cabiam vizinhos, comadres, compadres, gentes e animais.
Cabia sobrevivência, tropeços, insônias, apreços.
Cabia saudade, cabia trabalho, coisas diferentes, dias normais.

No coração de uma mãe mora o Uno e o Diverso.
Mora o ontem, mora o hoje, mora o eterno.
Mora a ilusão e a esperança infinitas.
Mora o silêncio das coisas não ditas.

Ser mãe é uma dádiva
Uma graça fecunda
Que alimenta o universo
De uma alegria profunda
Enternece o momento
Põe o mundo em movimento

E quase beira à loucura.
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22 de abr de 2017

DIA DO ÍNDIO?

Embora a data já tenha passado, acho que vale a pena compartilhar com vocês o importante texto do professor, filósofo e pedagogo Ely Macuxi que reflete sobre esta efeméride escolar no contexto de sua militância no movimento indígena.
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Hoje  é   “Dia do Índio”,

 Ely Macuxi[1]

 

Hoje é “Dia do Índio”, contrariando a música que diz que “todo dia era dia de índio”, convencionou-se essa data para destacar que “Nós Existimos”, lembrando a campanha realizada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), contra as agressões físicas, psicológicas e culturais que os índios foram vítimas em suas terras, minimizado com a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, em 2005 e confirmada em 2019 - que perdurou mais de três décadas, com 21 vítimas dos Povos Indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona  - Hoje é dia também saudá-los -  heróis, guerreiros, memorias que inspiram e motivam a continuar acreditando que nossa luta por autodeterminação, continua... 
Ao longo de 517 anos de histórias mal contadas no Brasil, as perseguição e mortes em nossos territórios, nunca nos levaram a desistir, sempre lutamos, fizemos levantes, invadimos, agora ocupamos e formamos espaços de resistências contra nossos agressores na aldeia e na cidade. A negação e recuo dos direitos fundamentais de proteção a vida indígena orquestrada pelo atual governo brasileiro exige uma tomada de posição de toda sociedade brasileira, aliando-se a causa indígena na luta, na defesa de direitos fundamentais: pelo direito a ser Povo, nacionalidades, ricas experiência de sociedades, diversidades que ao longo de toda história tem contribuindo para o desenvolvimento do país, demostrando a viabilidade de suas riquezas culturais, formas de produção e proteção ambiental; compondo um cenário de possibilidade pelo trabalho, gastronomia, arte e cultura geral do Brasil.
Hoje não quis colocar pena na cabeça, muitos menos pintar a cara com tinta de urucum, os braços e pernas com tinta de jenipapo como muitas vezes tive que fazer para alegrar os ingleses e incautos... Assim, como fazem com as crianças nas escolas colocando cocares de papel ou de pena de galinha, pintando-as com tinta guache numa maneira alegórica e caricatural de referência a cultura indígena. Ainda fazem os alunos a cantarem: “Índio, fazer barulho...”.  Lamentável, tantos conhecimentos e aprendizados desperdiçados.  Mas, já houve muita gente que comparou a escola a um “picadeiro de representações e apresentações trágicas”, embora continue acreditando em sua viabilidade para formação integral, preparação para o trabalho, aptidões científicas...
Bem, mas hoje é “Dia de índio” e devo pensar a “Escola” em nossas Malocas. Pensar como está sendo desenvolvida a escolarização de nossas crianças, de nossos futuros guerreiros, cidadãos indígenas. Podemos antecipar em linhas gerais, que num quadro de comparação, o resultado da escolarização ofertada aos povos indígenas não se difere do ensino das escolas públicas dos não indígenas. Falta prédio escolares, falta professor com formação, material didático, acompanhamento técnico pedagógico, falta merenda escolar em quantidade e qualidade, professores ministrando aulas fora de sua área de conhecimento, projeto político pedagógico aliado a realidade do povo... Bem, falta muita coisa, mesmo... Embora, tenha muita gente que acredita que ela é indígena e está ao encontro de seus interesses, por que, geralmente, são ornamentadas com tessumes, enfeites, pinturas e objetos da cultura material indígena. “Tem índio? Então, pode bater foto!”...
Todo mundo sabe que a escola em contexto indígena é tão antiga quanto a colonização do Brasil. Ou seja, o processo civilizatório - dominação, expropriação dos territórios e da cultura indígena passou também através da escola e da igreja – Por força dos contatos assimétrico entre o invasores europeus e povos indígenas, ontem e hoje, a escola continua sendo símbolo da dominação e da integração.
Esse processo já perduram 517 anos ou mais, a colonização ocasionou o desaparecimento total de povos, mudou hábitos e comportamentos, impondo novas territorialidades, eliminando as diferenças culturais, sobreposição de raças e etnias... Posteriormente, o Estado Nacional, agora brasileiro, de forma aberta e oportuna - sob a égida do tutelamento desenvolve ações direcionadas para o integração, sutilmente ou descaradamente, através de programas economicistas, políticas descontinuas de assistencialismo, modificando seus hábitos tradicionais; inaugurando, dessa forma, novos tempos, novas mentalidade, novos projetos societários no contexto das aldeias.  
Se isso é uma realidade na história da educação escolar no Brasil, neste “Dia de Índio” - nós educadores indígenas devemos nos perguntar: por que continuamos abraçando esse projeto de escolarização diferenciada como o propósito de gerar autonomia a nossos povos, sabendo que ela tem atuado para alienar e ocidentalizar as culturas tradicionais, impondo sutilmente modelos estranho a mudo de viver indígena?
Quais são os limites de sua operacionalização frente as possibilidades apontadas e exigidas pelo Movimento Indígena Organizado, por uma educação escolar de qualidade, que prepare os alunos para o diálogo intercultural, formação de lideranças, formação de professores com capacidade de se apropriar e realizar leituras dos códigos ocidentais e promover diálogos interculturais, desenvolvendo a capacidade analítica, críticas de referenciais estranho a cultura tradicional? Uma escola, cujo o projeto pedagógico, ajudasse a promover e afirmar as tradições; ajudasse a organizar para manter os territórios e populações; desenvolver alternativas de sustentabilidade, autonomia?
Por que, apesar dos quase 30 anos de sua implantação no Brasil, o Programa de Educação Escolar Indígena não produziu dados reais, estudos e análises sobre os cursos de formação inicial e continuada de professores e técnicos indígenas, produção e distribuição do material didático e pedagógico, construção e reformas das escolas indígenas, quantidade e distribuição da merenda escolar, transporte escolar, assessoria antropológica e linguísticas  Como podemos realizar uma profunda analise de que essa escola, concebida com diferenciada e intercultural tem atuado a serviço de modelos integrador? E os “Territórios Etnoeducacionais? Alguém sabe dizer, quantos milhões foram repassados ao governo do Amazonas para Educação Escolar Indígena? Nesse contexto de perseguição e negação de direitos é melhor parar de perguntar...
Sendo a escola o espelho dos ideários civilizatórios nas aldeias indígenas, quais os mecanismos que ela tem usado para acomodar suas intenções, ceifando os ideários de uma pedagogia da autonomia, como tanto pregava um branco que tinha mentalidade de índio, chamado de Paulo Freire?
Frente aos ideários globais, mercados e tecnologias, os indígenas, sobretudo os que tem contato permanente com os contextos urbanos e seus mediadores, por que essa proposta de educação escolar não atrai mais os pais, alunos e professores indígenas? Em contextos multiculturais e urbanizados, qual é a escola que temos e qual a escolar que queremos?
Os Cursos Superiores – promovidos pelas Universidades Públicas – nas suas ações pedagógicas, tem levados aos alunos e pesquisadores indígenas um ensino diferenciado, que contemple a diversidade, o tempo de contato, seus territórios, línguas diferenciadas, numa proposta pedagógica de aproximação dialógica entre os conhecimentos ocidentais e conhecimentos indígenas? Pensando nas diferenças culturais dos povos, seus conhecimentos, referencias epistemológicas, classificações e ciências, esses cursos estão preparados, abertos para absorver esse pluralismo, criatividade da diferença cultural?

                                                São questões para pensar no “Dia do Índio”.




[1] Descendente do Povo Macuxi de Roraima, professor e escritor indígena.
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